
A importância do Movimento cineclubista no Brasil da ditadura foi o ponto de partida para que Rose Clair mudasse o foco do seu projeto de doutorado e iniciasse o trabalho que resultou no livro Cineclubismo – Memória dos anos de chumbo, lançado pela editora Multifoco.
O trabalho vem rendendo vários convites à autora para debates e discussões acerca do tema. Aqui, você confere uma entrevista exclusiva de Rose Clair ao blog Opiniões Literárias.
Opiniões Literárias: O que levou você a realizar esta pesquisa sobre o movimento cineclubista? Qual a origem deste trabalho?
Rose Clair: Este trabalho teve origem na minha tese de doutorado. Inicialmente meu objetivo era refletir sobre políticas de formação de professores, comparando com as desenvolvidas no período da ditadura civil-militar de 1964, na perspectiva de compreender a permanência da dicotomia entre pensamento educacional elaborado e a realidade do espaço escolar, que contribuiu e contribui para o fosso existente entre o saber “oficial” veiculado pelas instituições educativas e sua relação com os diferentes saberes tecidos cotidianamente no espaço escolar e social.
No decorrer da pesquisa fui percebendo a importância do movimento cineclubista na época da ditadura não só como um espaço de resistência político-cultural, bem como de formação para os sujeitos que dele participaram. Assim, refiz o projeto inicial e reestruturei a pesquisa.
Acredito que perceber que o movimento cineclubista poderia se constituir em um estudo de doutorado está intimamente relacionado com o fato de eu ter sido cineclubista neste período. Minha experiência no movimento foi fundamental para esta “descoberta”. A atividade cineclubista possibilitou a mim e aos meus narradores uma formação vivenciada no processo de participação política, social e cultural,que ao suscitar questões oriundas da prática cotidiana, exigia de nós ações capazes de criar sentidos para o momento vivido. No dia a dia da nossa atividade realizávamos reuniões da equipe para organizar as sessões, o debate após o filme com o público, a produção de material (cartazes, apostilas) e pesquisa sobre os filmes, exercitando nossa aprendizagem e crescimento coletivamente. Nós tínhamos um Estado ditatorial e, no entanto, nós conseguimos exercer no espaço do cineclube essa possibilidade de uma prática democrática que de alguma forma questionava e escapava do poder dominante.
Considero importante destacar que “… pertencer a um grupo, construir referências, fazer amizades, sentir-se “útil”, participar e poder influir nos rumos do país foi fundamental. Pertencer – fazer parte de – é uma necessidade de todos nós, pois que é neste pertencimento que construímos nossa relação com o outro – nos constituímos – que elaboramos nossas relações políticas e culturais, participando de uma coletividade e germinando vínculos que nos permitem vislumbrar “horizontes de possibilidades”.” 
OL: Como foi o processo de pesquisa em si?
Rose Clair: Escolhi como caminho metodológico a narrativa, compreendida como mediação entre o tempo vivido e os sentidos produzidos neste tempo pelas ações humanas; a narrativa como experiência compartilhada, dialogada, e, assim sendo, política, visto que nesta perspectiva, o sujeito se constitui na relação com o outro, num contexto sócio-histórico.
Meu estudo destaca o valor da experiência como fonte e possibilidade da narrativa. Entrelacei as leituras dos autores com a pesquisa de campo, privilegiando as narrativas dos sujeitos da pesquisa, através de entrevistas abertas, que permitiram recuperar as memórias e as experiências dos cineclubistas. Possibilitaram, ainda, a valorização dos saberes oriundos da vida cotidiana dos diferentes sujeitos sociais e o surgimento de histórias interditadas, de interpretações e leituras de mundo diverso do instituído, contribuindo para a (re)construção de histórias não escritas, de experiências que pluralizam o conhecimento histórico.
Procuro evidenciar o papel desempenhado pelo cinema na formação destes sujeitos, indicando a potência da experiência estética para seu processo de socialização. O trabalho com o cinema mostra a importância da dimensão afetiva, sensível e reflexiva no processo de formação dos sujeitos.
OL: O livro vem tendo uma grande repercussão. Você acredita que o seu trabalho explora um assunto até então carente de uma pesquisa séria? O livro vem realmente para preencher esta lacuna?
Rose Clair: Acho que é um tema “marginal” e que nos últimos anos, com alguns trabalhos acadêmicos, vem ganhando alguma visibilidade. Não tenho condições de dizer se há carência de pesquisa séria, pois não conheço todos os trabalhos. Creio que a abordagem que fiz é pioneira. Neste sentido, penso que preenche uma lacuna.
OL: Qual a receptividade do trabalho dentro do movimento cineclubista atual? Há uma identificação com este grupo?
Rose Clair: Pelos convites que tenho recebido para apresentar o livro, creio que posso dizer que há uma boa receptividade. Acredito que os cineclubistas de hoje, da mesma forma que nós à época, querem conhecer e saber mais sobre as experiências vividas por outros cineclubistas em outros tempos. É viver também a experiência do outro.