Você está doido para descobrir um ótimo escritor novo? Minha melhor dica é Barbara Duffles. Apesar do que o nome leva a crer, ela é brasileira. É uma jovem carioca a quem sobram inteligência, cultura, talento e sensibilidade artística. Conheci suas crônicas através de seu blog, o Não Clique, onde pude acompanhar a evolução do seu trabalho, mais maduro a cada novo post. E agora ela acaba de compilar seus melhores textos em um livro, Não Abra, editado pelo selo Download Blogs, da editora Multifoco. Eu fiz questão de ir ao lançamento, de onde saí com uma dedicatória linda em meu exemplar. A obra ainda não está nas grandes livrarias, mas pode ser comprada pela internet, clicando aqui.

Dizer que Não Abra reúne crônicas é uma forma simplista de resumir o assunto. Não é bem assim, na verdade. Além das crônicas, há pensamentos, desabafos, divagações, opiniões, textos inclassificáveis. Quando são escritos em primeira pessoa, não fica claro se são autobiográficos ou se são a expressão de um eu lírico, o que enriquece a obra – estaria a autora se revelando sem pudores ou exercitando seu talento de se imaginar na pele dos outros?

Barbara é econômica nas palavras, mas elas transbordam sensibilidade e significado. O leitor é freqüentemente transportado para a solidão dos pensamentos alheios. E o tempero dos textos varia: pode ser crueldade, ceticismo, esperança, compaixão, amargura, felicidade, tesão, sentimentos e sensações que todo mundo conhece, mas que são difíceis de explicar. A autora sabe transmiti-los e despertá-los muito bem.

Resenha escrita por Alexandre Santos, retirada do blog http://freakshowbusiness.com/2008/09/07/pilula-critica-%E2%80%9Cnao-abra%E2%80%9D-de-barbara-duffles/

 

“Comece a espalhar a notícia, estou partindo hoje, / Eu quero ser parte dela / Nova Iorque, Nova Iorque”. O novo romance de Denny Yang evoca a canção de Sinatra: impossível não sê-lo. Basta pousar os olhos no título e a melodia flui à mente do leitor. New York, New York (Ed. Multifoco, 2008) é paradoxal com relação a um ponto em específico, o de vista: desenvolve-se no 11 de Setembro, período em que a mídia centrou toda a sua cobertura nos atentados terroristas em território estadunidense, mas mostra a quem lê que, muitas vezes, a verdadeira guerra trava-se em nosso cotidiano, não importando a quantas anda o mundo-cão exterior.

 

Se o episódio nos EUA já era confuso por si só, imagine como seria se você ficasse longe de tudo por dois anos, em meio às montanhas. É exatamente o que se passa com o narrador da trama, e – escolha acertada – o uso do discurso em primeira pessoa cai perfeitamente ao anseio de clarear para o leitor o psicológico atordoado de quem escolhera o exílio voluntário e retorna ao mundo em meio à queda do WTC.

 

A tentativa, ou melhor, a necessidade de voltar a interagir com a sociedade ganha uma chance quando os atentados são noticiados na televisão: já que todos comentam sobre o assunto, sair da casa dos pais para buscar diálogos é uma ótima opção de entrosamento. Mas, seja nas ruas, seja no bar dos amigos, o Maria Maria, nosso locutor esbarra na falta de opinião ou – o que é completamente justificável – na apatia da população pelo caso, afinal, o caso ocorreu a muitos quilômetros daqui, e a vida é difícil o bastante sem se preocupar com os problemas dos outros.

 

Enquanto o mundo explode lá fora, o homem de New York, New York vê-se obrigado a implodir as duas torres que se lhe impunham: a busca pelo trabalho de ator em teatros e a paixão desenrolada aos poucos e mal resolvida com a grande amiga Aline. Precisa lidar com ambas as situações, mas, humano que é, sente que o amor é capaz de trazer mais sossego, de até fazê-lo não reparar com muita atenção os noticiários acerca dos atentados. Aline mora no litoral da cidade e é linda. De uma beleza quase adolescente, daquelas que faz o rapaz sentir-se bobo, sem saber o que dizer. Mas a montanha da solidão lhe mostra que deve mudar de atitude, que alimentar a paixão somente não seria frutífero: tem de arriscar para ser feliz.

 

Ele o faz, e o romance ganha parte substancial do livro, incluindo outros personagens relevantes, como a colega Cláudia e o ator Fabiano. Prendendo o leitor com sentimentos inerentes a todos, Yang mostra-se seguro e deixa transparecer que sempre haverá um quebra-cabeça autobiográfico embrenhado nas obras dos escritores. Impossível saber quais das partes do romance foram vividas – de alguma forma – pelo autor, nem isso é relevante: o mais importante aqui é notar como nos identificamos com suas palavras.

 

Utilizando uma linguagem simples, de entendimento por todas as faixas etárias de leitores, Denny Yang busca nos mostrar as reviravoltas que podem ocorrer em qualquer paixão e que, embora possa parecer uma realidade dura, a verdade é que buscamos, antes de mais nada, seguirmos com nossas vidas, felizes; não era isso o que cada uma das vítimas do atentado almejavam em seu dia-a-dia? O narrador do livro avidamente deseja modificar a si mesmo, e percebe que é possível conciliar suas experiências do isolamento com o frenético mundo de fora. Eis o corolário do novo livro de Denny Yang expresso nos versos da música de Frank Sinatra: “Eu quero acordar na cidade que nunca dorme / E descobrir que sou o rei da montanha – O maioral”.

 

Nota do Editor:

Alex Martire nasceu em São Paulo em 1983, é graduado em História pela Universidade de São Paulo, desejando seguir adiante na área da Arqueologia Clássica, embora a paixão pelas letras esteja em sua vida desde antes e nunca o abandonará. Possui diversas poesias e contos ainda não publicados.

 

Resenha escrita por Alex Martire, retirada do blog http://penetralia-penetralia.blogspot.com/2008/10/new-york-new-york-de-denny-yang.html

 

A importância do Movimento cineclubista no Brasil da ditadura foi o ponto de partida para que Rose Clair mudasse o foco do seu projeto de doutorado e iniciasse o trabalho que resultou no livro Cineclubismo – Memória dos anos de chumbo, lançado pela editora Multifoco.

 

O trabalho vem rendendo vários convites à autora para debates e discussões acerca do tema. Aqui, você confere uma entrevista exclusiva de Rose Clair ao blog Opiniões Literárias.

 

Opiniões Literárias: O que levou você a realizar esta pesquisa sobre o movimento cineclubista? Qual a origem deste trabalho?

 

Rose Clair: Este trabalho teve origem na minha tese de doutorado. Inicialmente meu objetivo era refletir sobre políticas de formação de professores, comparando com as desenvolvidas no período da ditadura civil-militar de 1964, na perspectiva de compreender a permanência da dicotomia entre pensamento educacional elaborado e a realidade do espaço escolar, que contribuiu e contribui para o fosso existente entre o saber “oficial” veiculado pelas instituições educativas e sua relação com os diferentes saberes tecidos cotidianamente no espaço escolar e social.

 

No decorrer da pesquisa fui percebendo a importância do movimento cineclubista na época da ditadura não só como um espaço de resistência político-cultural, bem como de formação para os sujeitos que dele participaram. Assim, refiz o projeto inicial e reestruturei a pesquisa.  

 

Acredito que perceber que o movimento cineclubista poderia se constituir em um estudo de doutorado está intimamente relacionado com o fato de eu ter sido cineclubista neste período. Minha experiência no movimento foi fundamental para esta “descoberta”. A atividade cineclubista possibilitou a mim e aos meus narradores uma formação vivenciada no processo de participação política, social e cultural,que ao suscitar questões oriundas da prática cotidiana, exigia de nós ações capazes de criar sentidos para o momento vivido. No dia a dia da nossa atividade realizávamos reuniões da equipe para organizar as sessões, o debate após o filme com o público, a produção de material (cartazes, apostilas) e pesquisa sobre os filmes, exercitando nossa aprendizagem e crescimento coletivamente. Nós tínhamos um Estado ditatorial e, no entanto, nós conseguimos exercer no espaço do cineclube essa possibilidade de uma prática democrática que de alguma forma questionava e escapava do poder dominante.

 

Considero importante destacar que “… pertencer a um grupo, construir referências, fazer amizades, sentir-se “útil”, participar e poder influir nos rumos do país foi fundamental. Pertencer – fazer parte de – é uma necessidade de todos nós, pois que é neste pertencimento que construímos nossa relação com o outro – nos constituímos – que elaboramos nossas relações políticas e culturais, participando de uma coletividade e germinando vínculos que nos permitem vislumbrar “horizontes de possibilidades”.”  

 

OL: Como foi o processo de pesquisa em si?

 

Rose Clair: Escolhi como caminho metodológico a narrativa, compreendida como mediação entre o tempo vivido e os sentidos produzidos neste tempo pelas ações humanas; a narrativa como experiência compartilhada, dialogada, e, assim sendo, política, visto que nesta perspectiva, o sujeito se constitui na relação com o outro, num contexto sócio-histórico.

 

Meu estudo destaca o valor da experiência como fonte e possibilidade da narrativa. Entrelacei as leituras dos autores com a pesquisa de campo, privilegiando as narrativas dos sujeitos da pesquisa, através de entrevistas abertas, que permitiram recuperar as memórias e as experiências dos cineclubistas. Possibilitaram, ainda, a valorização dos saberes oriundos da vida cotidiana dos diferentes sujeitos sociais e o surgimento de histórias interditadas, de interpretações e leituras de mundo diverso do instituído, contribuindo para a (re)construção de histórias não escritas, de experiências que pluralizam o conhecimento histórico.

 

Procuro evidenciar o papel desempenhado pelo cinema na formação destes sujeitos, indicando a potência da experiência estética para seu processo de socialização. O trabalho com o cinema mostra a importância da dimensão afetiva, sensível e reflexiva no processo de formação dos sujeitos.

 

OL: O livro vem tendo uma grande repercussão. Você acredita que o seu trabalho explora um assunto até então carente de uma pesquisa séria? O livro vem realmente para preencher esta lacuna?

 

Rose Clair: Acho que é um tema “marginal” e que nos últimos anos, com alguns trabalhos acadêmicos, vem ganhando alguma visibilidade. Não tenho condições de dizer se há carência de pesquisa séria, pois não conheço todos os trabalhos. Creio que a abordagem que fiz é pioneira. Neste sentido, penso que preenche uma lacuna.

 

OL: Qual a receptividade do trabalho dentro do movimento cineclubista atual? Há uma identificação com este grupo?

 

Rose Clair: Pelos convites que tenho recebido para apresentar o livro, creio que posso dizer que há uma boa receptividade. Acredito que os cineclubistas de hoje, da mesma forma que nós à época, querem conhecer e saber mais sobre as experiências vividas por outros cineclubistas em outros tempos. É viver também a experiência do outro.

 

O que nos interessa particularmente na literatura existencial, da qual, pensamos nós, Denny Yang é um representante legítimo, é a riqueza de significados presente em cada produção que pertence ao gênero. Neste tipo de literatura, em geral encontramos uma idéia central, ou melhor uma questão central, seguida de uma questão secundária (não por ser  menos importante que a questão central em si, mas por ter esta última prioridade dentro da estrutura narrativa) mais ou menos explícita no texto, e finalmente uma ou mais questões implícitas, que o autor acaba inserindo conscientemente ou não.

 

Encontramos neste romance três idéias ou questões: um intérprete mais atento e qualificado com certeza encontraria mais. As duas primeiras, já analisadas no belo prefácio de Marcelo Coelho para esta obra, seriam: 1) a questão central, aliás muito bem ilustrada de forma metafórica pelo título do romance, que é o dilema vivido pelo protagonista Mário (que também é o narrador da história), um jovem guitarrista idealista, entre de um lado continuar a tocar rock experimental com sua banda mesmo que sem sucesso comercial e condenado a viver financeiramente apertado pelo resto da vida, e do outro aderir e se integrar ao mundo materialista de hoje, acertando sua vida pessoal mas deixando de lado todo ideal: a figura de seu tio Rigoberto, que na juventude fora um aspirante a escritor para  depois se tornar banqueiro de bicho, e que agora está com câncer em fase terminal, é bastante incômoda para o protagonista, porque está inserida exatamente dentro deste dilema; 2) uma questão secundária, ligada inclusive à questão central, bastante importante em si porque todos nós cedo ou tarde temos de passar por ela, é a passagem da idade adolescente para a idade adulta, ou seja a passagem de um mundo de sonho e de divertimento para o mundo sério, duro e competitivo dos adultos: Mário e sua namorada Gabi, apesar de jovens adultos, ainda não parecem ter superado esta fase. De qualquer forma, a solução encontrada pelo autor para o protagonista, ou seja o meio-termo entre o idealismo e o materialismo representado pela aceitação de parte da herança do tio e seu investimento primeiramente na mal-sucedida banda e depois numa estação de rádio, resolve convenientemente o dilema.

No entanto, sendo que o autor desta resenha é um aspirante a historiador, e não um especialista em teoria literária, e ainda menos um psicólogo, uma outra questão nos chamou mais a atenção, que é a do ambiente de cansaço histórico que domina o Ocidente nos dias atuais. Denny Yang, talvez inconscientemente (é muito mais fácil para o leitor perceber as diferentes nuances de uma obra literária do que para o próprio autor), conseguiu reproduzir perfeitamente aqui neste romance o ambiente ideológico deste início do século XXI: depois de um longo período iniciado com a Revolução de 1789 e encerrado com o fim da União Soviética em 1991, um período marcado por guerras, revoluções e lutas políticas, encontramos um Ocidente cansado, crente de que já cumpriu seu papel histórico e de que agora o importante, enquanto o Oriente prepara seu futuro triunfo (exemplos da ascensão da China e do reerguimento da Rússia pela mão de ferro de Vladimir Putin), é concentrar-se no problemas da vida pessoal evitando-se querelas ideológicas e as encrencas delas decorrentes. Na intriga de A Gangorra, esta questão está, no nosso entender, presente na situação do protagonista, cuja banda que faz um som de vanguarda não encontra ressonância numa sociedade indiferente, na figura do tio Rigoberto, que mesmo não tendo se tornado uma má pessoa deixou o idealismo de lado, e na figura da namorada Gabi, uma jovem de família abastada e de bom coração, mas que não parece ligar para absolutamente nada que vá além de seu pequeno mundo. O já citado meio-termo encontrado pelo autor é um final melancólico que exprime de certa forma o recuo da sociedade ocidental diante da grandeza, que segundo o imortal general De Gaulle significava um grande projeto nacional de potência mas que poderia significar também uma busca por algo que está acima do pequeno mundo, acima da vida cotidiana e acima do homem médio.

Denny Yang inicia portanto uma promissora carreira de romancista, sobretudo por sua capacidade de, através de uma intriga simples e acessível, captar o espírito da época na qual vive e transmiti-lo ao leitor. Esta tarefa seria mais fácil para um escritor pertencente às gerações futuras, cuja distância em relação aos nossos dias poderia levá-lo a analisá-los mais friamente. 

Resenha de Guillaume Azevedo Marques de Saes, extraída do site: http://www.verbo21.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=175&Itemid=111

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.